sexta-feira, outubro 19, 2012

A Décima Marca


Um lado

once up a time in the west

O sol na janela me acorda. O vento balança as cortinas transparentes. De renda. Mania de Hotel barato tentando esconder o desconforto com um pouco de luxo. Eles acham que disfarça o ambiente mal cuidado. E a janela que não fecha direito. É cedo. Sete horas? Talvez menos. Escolhi hoje ao meio dia. Queria dormir um pouco mais. Assim não ficaria pensando. Não, não estou com medo. Quero apenas estar com a cabeça livre. Limpa de pensamentos e lembranças.

Se eu levantasse às onze como planejara, só teria tempo para um almoço leve e de me concentrar no que ocorreria dali a uma hora. "Mente desocupada é oficina do diabo." Ele me disse. Ele me disse muitas coisas. "A décima marca é a mais importante. Mais importante que a primeira. A primeira pode ser um zé-ninguém qualquer. Como você hoje." Detestava quando ele me chamava de zé-ninguém. Mas ele tinha razão. Quem seria eu até não ter posto a décima marca em meu revólver? A primeira podia ser qualquer coisa: "um velho bêbado, um índio desgarrado da tribo, um jovem forasteiro tentando mostrar que é homem."

Foi um bêbado arruaceiro. Servia. Depois do primeiro, "o medo de matar teria ido. Só isso. Mas depois da décima, você conviverá com a fama."

Nunca ousei perguntar o que aconteceria com o medo de morrer.

Outro lado


Não comecei por quis. Era ele ou eu. E tem sido assim sempre. No começo até fiquei orgulhoso. Ainda resta um pouco deste orgulho. Talvez ele me mantenha vivo. Quantos eu matei, iludidos com a mesma fama que hoje eu desfruto?

Antes eu marcava. Uma ansiedade sem limites até conseguir a décima marca. "O atestado de profissionalismo. É mais importante." Ou foi. Hoje tanto faz. "E lembrar é uma fraqueza." Não estou preocupado em ser forte ou fraco. Quero que apenas acabe logo. Para mim ou para ele. Não faz mal eu lembrar. A décima marca foi um caçador de recompensa. Famoso. Ele pegou muita gente perigosa. Por dinheiro. E passou a gostar disso. Matar gente perigosa. Decidiu fazer caçadas "preventivas". O dinheiro não importava mais. E, em sua visão, eu era um criminoso. Só faltava o cartaz de "procura-se".

Mereceu a bala que o matou.

Um lado


Meu revolver só tem oito marcas. Foi tão fácil fazê-las, que achei que poderia marcar um duelo com ele. No caminho acharia um idiota qualquer para me desafiar e levar chumbo. Mas a notícia correu rápido. Se eu estava pronto para enfrentá-lo, então quem teria coragem de me desafiar? Ninguém iria conferir se eu poderia ou não...

Ainda havia tempo para caçar uma briga e obter minha nona marca. A vítima podia ser até uma puta. A qualidade não tinha muita importância. Mas ainda é muito cedo para ter muita gente no bar. E não creio que vá ninguém. O pessoal só vai por a cara pra fora alguns minutos antes. Como sempre.

Alguém bateu à porta. Não tenho amigos. Nem amantes. Então, quem seria?

Ah! O padre! Há dias que ele vem tentando me segurar, fazer-me desistir da vida que levo ou, pelo menos do duelo. É um dos que apostam contra. Vou ouvi-lo mais uma vez e dispensá-lo.

Ela

Como sempre ele vai mandar aquele garoto me chamar. Vai dar a ele algumas moedas, indicar a Casa da Madame e dar-lhe uma descrição minha (embora ele já saiba, como todos na cidade), um tanto vaga. As outra meninas gostam do jogo e quando o menino aparece, fingem que ele é um cliente, oferecendo seu dotes, só para vê-lo ficar vermelho. Quando saio com o garoto na rua, são os homens que o constrangem, fazendo comentários obscenos sobre o que eu e o garoto faremos no hotel. Quando o trajeto acaba, o menino ri e vai embora, deixando-me diante da porta.

Sei que está aberta, mas bato assim mesmo. Sei que não virá resposta nenhuma, mas continuo com o jogo. Se fosse outro, eu virava as costas e ia
embora. Mas com ele, o jogo me excitava, como uma adolescente. As outra meninas dizem que isto é paixão.

Bati de novo. Mais uma vez. Sem resposta. A terceira vez e nada.

Abri lentamente a porta e entro pé ante pé, apreensiva. O assoalho range, mesmo com meu cuidado. Corro de volta para porta . Ela se fecha revelando um homem com uma arma apontada para mim.

Um lado

Enquanto o padre falava, senti minha raiva crescer. "O ódio cobre o medo.
Você tem que ter ódio para não ter medo. O medo de matar e o medo de morrer. 
O ódio elimina a culpa e o medo. Se sentir raiva deixe-a crescer e
transforme-a em ódio. Se não puder sentir ódio, não sinta raiva." Talvez
fosse bom deixar a raiva ir.

Quantas vezes o padre veio me falar? Não importa. Pela primeira vez, prestei
atenção no que ele dizia:

Por que você vai desperdiçar sua vida?

Não sei bem porque mas respondi:

Eu desejo a morte.

O padre olhou horrorizado:

Não haverá paz na sua morte. Sua vida futura será de eterno sofrimento.

Vida futura? - respondi com desdém.

Sim! A morte é uma ilusão.

Não! A vida é uma ilusão! A sua vida!

Pronto!

Fiz minha nona marca.


Outro lado

Esconder-me atrás da porta ou em outros lugares para assustá-la com uma arma era parte de um jogo que começou há muito tempo. O primeiro a deixou zangada, mas o seu coração bateu mas forte, não só pelo susto. E se fosse só um susto eu não repetiria a dose. E venho fazendo isso a bastante tempo. Não com frequência nem com regularidade, senão estraga o jogo. Ela não deve saber quando. A ansiedade, a expectativa e o risco a deixam excitada. E sua excitação aumenta meu desejo.

O risco é parte inerente do jogo. Talvez eu goste disso por ser parecido com a vida que eu levo. O risco de morte temperada à vida. Talvez eu faça isso quando a Morte esteja muito perto de mim. Como hoje. Talvez haja relação com o desafio que ocorrerá daqui a pouco. Talvez não devesse. "Nada de mulheres ou bebidas antes". A regra de ouro não-escrita. Ou melhor escrita pelos sobreviventes.

Ela

É ele. Pede-me... ordena-me que me dispa sob a mira de um arma. Excitante?

Sim, por ser ele. Não gosto de armas. Tornam os covardes em valentes. Em valentes mortos.

O risco de um tiro real faz meu coração bater. Sei que ele é hábil e jamais me fará mal. E ele me quer assim. Medo, ansiedade e desejo. Não é sempre. Às vezes quer leveza e ternura. Outras, só sexo. Sempre penso que cada uma delas pode ser a última. Dou o melhor de mim. Tempero sexo com desejo real e algo que nunca dou a ninguém.

Minha alma.

Um lado

A morte do padre foi simples. Sem reação. Preferia uma luta. Com um pouco de risco. Como a que que ocorrerá daqui a alguns minutos. Duelos são como sexo.

Eu diria que é melhor. Eu sempre saio satisfeito. E se fracassar, será apenas uma vez, sem lamentações posteriores...

Outro lado

Ela sempre faz assim. Se entrega de corpo e alma. Talvez me ame. Não quero que isso aconteça. Um dia não voltarei. Talvez enjoe dela, como de tantas outras. Talvez ela enjoe de mim, como outras tantas. Talvez eu me encontre com a derradeira companheira um dia destes.

Mas hoje eu ouvi dela algo que nunca ouvi de mulher alguma:

Não vá!

Ela

Não vá! — foi o que eu disse

Mas ele foi. Vestiu-se, colocou o cinturão e seu revólver, o chapéu e, surdo
a meus apelos, saiu sem olhar para trás.

Sempre assim. Sempre? Apenas hoje eu disse "não vá", embora tenha pensado todas as vezes. Desde a primeira. Quando foi? Uma vez no começo dos tempos... Antes eu não existia.

Corro para a janela e o vejo caminhando pela rua, seguindo um ritual não escrito. Seu adversário esta lá esperando. Talvez haja um diálogo ritualizado, talvez não. Mais provável não. Ele é calado.

Diz que já falou demais.

Um lado

Lá está ele, caminhando no centro da rua. Taciturno e quieto. Passos decididos, mas lentos. Seu estilo. Isso quebra o ânimo dos menos experientes.

Ele chegará e por um milésimo de segundo vai me avaliar. Se achar que não valho a pena, virará as costas. Como fez com tantos outros. Alguns gritam-lhe provocações, que ele ignora. Todos sabem, que, se ele quisesse, já teria morto o insolente. Outros não dizem nada e entendem a mensagem. Outros ainda, sacam. Mesmo tendo que se virar, ele é mais rápido. E acerta onde quer. A perna, o pé ou a mão. Apenas uma lição. No peito se achar que o cara não vale nem uma lição.

Outro lado

Ando devagar como se contasse os passos. A rua, com seus poucos metros, parece infinita. No local marcado está ele. Um rosto frio e duro como o meu. Minha vítima ou meu sucessor dali a segundos.

Sucessor! Foi por isso que o treinei. Creio que bem demais, pois ele escolheu corretamente sua décima marca. Um adversário digno.

Se ele soubesse como eu mudei desde que o deixei na estrada... "A descoberta do amor acaba com os dias de um pistoleiro. Ou ele se aposenta ou morre."

Minhas próprias palavras a um discípulo aplicado.

Há um dias atrás, ele era somente uma lembrança de um fracasso. Escolhi mal.

Um fedelho arrogante que imaginei que morreria no segundo ou terceiro encontro. Mas não, ele sempre escolhia adversários fracos demais.

Estarei fraco?

Ele sente, como um abutre.

Ela

Estou na janela observando a cena. Eu a vi inúmeras vezes. Um dos dois sacará primeiro e o outro tombará. Desta vez, decido virar o rosto, cansada
da morte e desejando a vida.

Ao virar o rosto, meu olhar pousa sobre a penteadeira e vejo algo que não deveria estar ali. Assustada, desço correndo para a rua e grito-lhe. Um erro.

Mas... haveria outro jeito?

Um lado

A tola correu para a rua gritando o nome dele. Não podia deixar de desperdiçar a chance. Um segundo de hesitação e eu estava em vantagem. Mas sua reação foi rápida. Talvez não o suficiente. Meu tiro o atingiu, mas tive a nítida sensação de que ele sacou e apertou o gatilho primeiro. Mas não há mais nenhuma dúvida. Ele está lá caído nos braços dela.

Morreu? Não importa.

Viro as costas, para demonstrar o meu desprezo e me afasto, ajeitando o chapéu.

Outro lado



Ela vem correndo em minha direção e gritando e agitando sua mão. Não posso tirar minha concentração. Acabarei o serviço e depois a verei. O estranho é que sua mão está fechada, como se ela estivesse segurando algo.

Meu adversário percebe minha hesitação e saca. Meu reflexo está ótimo. Acionei o gatilho primeiro. Mas ... sinto dor. No abdômen. No abdômen!

Idiota!

"Nunca atire no abdômen! Atire na cabeça ou no peito, mas nunca no abdômen, se quiser matar e continuar vivo!"

Ela me coloca em seu colo e vê que ainda estou vivo. Ele se afasta, mostrando desprezo.

Chorando ela me mostra o que tem na mão.

Ela

Seis balas.

Ele tirou do revólver quando estávamos no quarto para que não houvesse nenhum risco de me ferir em seu jogo erótico.

O outro pistoleiro olhou com desprezo para ele e virou as costas, andando lentamente. Não pude tolerar mais aquilo. As seis balas foram para seu destino.

Primeiro para o tambor.

Chamei-lhe a atenção, gritando que ele era um covarde. Virou-se para mim com o olhar cheio de desprezo. Mas logo sua expressão passou para surpresa
quando dei o primeiro tiro. Tentou reagir mas já o segundo já lhe atingia o peito. E, antes que ele caísse, recebeu mais um. Os outros três foram com ele já deitado.

Na minha profissão, saber atirar pode ser muito útil. Normalmente para afastar arruaceiros bêbados mais afoitos. 

Fiz questão de aprender com ele. Me ensinou como se eu fosse um homem e como se, cedo ou tarde, fosse para as ruas.

Dois dias depois o homem que amava morreu em consequência dos ferimentos, iludido com a possibilidade de eu seguir-lhe os passos.

"Há algumas mulheres neste ramo". Dizia.

Mas, bem ou mal, eu prefiro lidar com a vida ainda que de uma maneira torta.

Mas, bem ou mal, eu prefiro lidar com a vida ainda que de uma maneira torta. 





Alvaro 2012
(todas as imagens são promocionais de filmes 
ou sem indicação de autoria)



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