terça-feira, setembro 30, 2014

Como se fosse o beija flor e a orquídea



Ele olhava pra ela com uma mistura de sentimentos, enquanto ela se admirava nua num espelho de corpo inteiro, de vez em quando tocando seu corpo, sentindo a própria pele.

Após alguns minutos de auto idílio, ela voltou-se pra ele e perguntou:

– Eu consegui me fazer bonita e desejável pra você?

Ele sorriu e respondeu:

– Bobinha! Até parece que é a primeira vez que usa esta forma!

Ela se voltou para ele e, ajeitando de leve seus cabelos, disse tentando parecer séria:

– Todas as vezes é como se fosse a primeira. Não sou como você que tem a sempre a mesma forma.

Ele franziu a sobrancelha antes de retrucar:

– Eu não diria "sempre". Sutilmente vamos mudando de forma cada dia. E temo que chegará o momento em que eu não te atraia mais.

– Ah, o envelhecimento – disse ela ainda fingindo seriedade, tentando ocultar seu sorriso.

E, jogando-o novamente na cama, completou:

– Não se preocupe, viva apenas este momento.

Beijou-o e sentiu plenamente o prazer de sua boca. Precisa sentir toda intensidade de seus lábios, enquanto dedos dela percorriam seus cabelos. Seus lábios foram para seu pescoço onde mordeu levemente. Sentiu vontade de virar ao lendário vampiro, mas não o fez. Queria mais do que tudo ser apenas mulher. Como mulher podia sentir o prazer de estar com um homem. Não qualquer homem. Ele.

Seu homem ficou excitado e a abraçou com força. Os dedos dele percorreram aquele corpo moldado apenas para o seu prazer. Sentiu a pele dos seios com a ponta dos dedos. apertou-os levemente para sentir sua firmeza e os beijou, mordiscando levemente. Ela deu um gemido baixo e fechou os olhos.

Sentiu sua boca descendo pelo seu ventre até que ele encontrou o que buscava. Lambeu levemente o clitóris e sentiu o gosto dela, penetrando-a com a língua. Um momento perfeito.

Ela estava extasiada. Ser mulher era a melhor forma de sentir prazer. Animais estava presos ao cio, plantas ficavam distantes uma das outras e homens estavam muito centrados em seus próprios pênis. Ele, não. Mas não queira transformar-se nele, mas senti-lo plenamente.

Uma vez, mais uma vez e outra. Quantas ele aguentasse.

Agora ele tocava sua vulva levemente com o pênis, sem penetrar. Ele sabia que isso ia deixá-la louca de prazer, mesmo sem ser telepata como ela.

A penetração foi inicialmente suave e depois com violência, do jeito que ela gostava. Era como de repente tivesse se transformado num lobo no meio da relação, coisa que ela fizera uma vez quando transmutada em homem e transando com outra mulher. Mas ele não precisava realmente mudar. O lobo sempre fora ele desde o começo.

O gozo veio intenso. Ela gemeu de prazer, acompanhando-o.
Agora ele estava relaxado, calmo em silêncio, olhando-a enquanto acariciava seus cabelos.

– Conte-me sobre como as flores fazem amor – ele pediu.

Olhando para ele, ela respondeu:

– As flores fazem amor com os insetos, o vento e os beija flores. Sentem prazer intenso em se exibir. Mas são solitárias, nunca podendo amar diretamente umas com as outras.

– Você já foi flor?



– Sim é é uma delícia. Também já fui abelha e beija flor. Abelhas não pensam que o que estão fazendo é sexo. Beija flores sentem mais prazer.

– E eu, sou uma flor ou um beija flor?

– Querido, você não é nenhum deles. Você é o melhor homem que conheci e me tem por inteiro.

– Mas quando você vai embora, eu me sinto como uma flor que não vê sua companheira.

– Meu amor, você pode ser como um beija flor e buscar outras flores!

– Mas eu seria como aquele beija flor apaixonado.

Ela lembrou-se da experiência em que fora uma orquídea branca e um beija flor se encantara com ela e sempre voltara lhe procurar. O pássaro fez isso até o final de sua curta vida de beija-flor.

– Bobo! – ela respondeu fingindo zanga – Há muitas flores por aí que até gostariam desse beija flor.

Então ela olho-o com um ar triste. O rapaz percebeu seu ar preocupado e perguntou:

– Por que a tristeza?

– Como o beija flor um dia você morrerá. E nesse dia sentirei muito sua perda. Mas não é essa a causa de minha tristeza hoje.

– Qual é então?

– Estou em missão em seu planeta. Estamos resgatando aquilo que tínhamos antes de nos tornarmos excessivamente espirituais, quando abandonamos definitivamente nossos corpos. Descobrimos tarde demais o erro. E queremos reconstruir o que um dia fomos. Eu fui encarregada de descobrir o amor e o sexo. E um dia deverei voltar com tudo que aprendi.

– E se você não voltar, o que acontece?

– Não sei. Eles jamais lidaram com uma insubordinação antes. Talvez venham me buscar, talvez me destruam ou ainda não façam nada.

– E quando termina esse prazo?

– Amanhã.

Ele a abraçou, a beijou e disse:

– Hoje você é mulher e o dia ainda não acabou. Amanhã pensamos como enfrentá-los.

Fizeram amor uma vez e outras muitas. Depois ficaram na sacada do prédio esperando o sol nascer.

Alvaro Domingues
imagens: colhidas na internet sem referencia de autoria.



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