quinta-feira, julho 17, 2014

Porta Fechada



Olho para a porta. Fechada, como sempre. Sempre? Pelo menos desde o dia que ele se foi. Eu sempre penso que ela se reabrirá um dia e ele passará por ela, como sempre fazia.

Não saio de casa desde então. Talvez tenha que sair um dia quando acabarem todos os mantimentos ou quando cortarem a luz por falta de pagamento. 

Do que estou falando? A luz se foi quando a noite chegou. Tudo se apagou. Pela janela do meu apartamento não vi sequer uma luz que não fosse uma estrela ou a lua. A fraca iluminação do céu estrelado me permitiu ver pessoas correndo em desespero. Ouvi sirenes vindo dos quatro cantos da cidade, depois silêncio. Um silêncio avassalador. Denso e pesado. Foi quando pensei pela primeira vez no meu marido. Ele deveria estar chegando e fiquei esperando a porta abrir. E ela não abriu. 

Tentei ligar para meu marido. O telefone sem linha e o celular sem sinal. Tentei usar o interfone, mas a portaria não atendeu. 

Decidi perguntar para os vizinhos do andar mas parei diante da porta. Um medo imenso me atingiu. Minha mão tremia. Fiquei paralisada alguns minutos diante da porta com a mão muito próxima à chave. Não abri e em vez disso, passei o ferrolho. Algo que nunca fizera e tive que pôr um pouco de força para ele se mover. 

Deixei-me cair no sofá. E fiquei esperando. Esperei e esperei. Acabei dormindo pelo cansaço. Acordei com as primeiras luzes do dia. Fui olhar pela janela e fiquei aterrorizada. Carros abandonados na rua. Muitas pessoas deitadas no chão que supus mortas. Vi em várias direções focos de incêndio.

Olhei novamente para as pessoas caídas. Quase todas estavam com falta de, pelo menos, um dos membros e havia membros sem pessoas. Mas não vi sangue nenhum. Aquelas pessoas teriam sido mortas em outro lugar e despejadas ali apenas para me assustar?

Pela primeira vez cogitei de que um dos mortos poderia ser meu marido. Senti um forte desejo de descer e examinar aqueles corpos a procura dele. 




Parei diante da porta novamente. Agora até minhas pernas tremiam. O que quer que tivesse feito aquilo ainda estaria lá fora. Embora fosse dia e o ataque tivesse sido feito à noite, nem todos os monstros são noturnos.

Não! Não desceria. De que adiantaria descer? Se meu marido estivesse entre os corpos, já seria tarde demais e eu ficaria bobamente exposta. E se ele não estivesse, eu ficaria também bobamente exposta, correndo o risco de morrer, quando ele podia ainda estar vivo.

Decidi então fingir uma certa normalidade. Fechei as cortinas, para ignorar o cenário lá fora. Sabia que tinha pouca comida armazenada em casa e muito do alimento estava no freezer da geladeira, que manteria a temperatura por poucos dias. Talvez o tempo necessário para me acostumar à ideia de ir lá fora. Passava o dia lendo, enquanto havia luz solar. E imaginava que era um dia normal. Meu marido saíra cedo e voltaria à noite. 

À vezes imaginava-o preso no seu escritório e, como eu, com medo de abrir a porta. Só que num escritório ele teria menos chances que eu em casa. Ele teria que rapidamente sair de lá. Não teria comida.

Quase desejei que ele estivesse com uma amante, em vez de seu escritório. Assim ele sobreviveria mais tempo, já que estaria num apartamento, com suprimentos escassos como os meus, mas tendo que dividir por dois. 

Quando este pensamento surgia, eu o afastava, pois sentimentos negativos vinham junto, como ciúme e raiva. Eu não seria tão abnegada assim. 

E havia a porta. Eu olhava para ela com um misto de esperança e medo. Ela poderia ser aberta por quatro motivos: meu marido chegaria e teria a chave e tentaria abri-la. Eu correria e abriria o ferrolho, ele entraria eu o abraçaria. Ou eu, por necessidade absoluta abriria a porta para ir à rua. Ela também podeira ser arrombada por um vizinho faminto e desesperado. E por fim, o pior pesadelo. Uma das criaturas, ou seja lá o que for, lá de fora finalmente me acharia.

Olho para porta. Fechada. Como sempre.

Decido escrever este relato. Uma maneira de passar o tempo, fazer um registro pra quando me acharem. Será que já me conformei com a ideia de morrer aqui, quando a comida acabar?

Não! Eu sou forte! Já se passaram três dias e nenhum monstro me achou. Começo a desejar que isto aconteça e que acabe logo. Chego perto da porta e encosto o ouvido nela. Nenhum som. Crio coragem para abrir o ferrolho. Minha mão treme ao se aproximar a chave da fechadura. Viro bem devagar como se tivesse medo de despertar alguém. O clic final, inevitável, foi ouvido. Só por mim, espero. Virei a maçaneta. Abri lentamente a porta.

Ele estava lá. Meu marido, parado com olhos vazios, roupa em farrapos, boca aberta, deixando pingar uma baba avermelhada. Não se moveu.

Voltei para dentro apavorada, fechei rapidamente a porta. E fiquei aguardando. Imaginei que ele viria e tentaria quebrar a porta. Mas ficou em silêncio. Um silêncio mortal, quase tumular. 

Abri novamente a porta. Ele continuava me olhando. Lembrei de todas as histórias de terror que conhecia. E uma frase comum a várias delas: o vampiro só entra se for convidado.

Vampiro ou não, abri de novo e o convidei a entrar. E já não me importava mais se a porta estava ou não fechada.


O Vampiro - Munchen -1893



Alvaro Domingues (2014)
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