sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Até que a guerra os separe



Frito um ovo. A gema inteira bem no centro da clara. Como ele gosta. Faço isso todas as manhãs, desde que nos casamos. Uma xícara de café forte na mesa da cozinha.  O inicio da manhã se completaria com ele chegando do seu trabalho noturno. Às vezes chegava antes e me abraçava e me beijava enquanto ainda estava fritando o ovo. Por causa disso, algumas vezes o ovo queimava e ele fingia ficar zangado.
Mas hoje ele não veio, como não tem vindo desde quando foi convocado para lutar na Guerra. Eu não diria convocado, mas, sequestrado. O governo do Sudeste não reconheceu seu direito de ficar em nosso estado, limítrofe entrre as duas regiões, declarado neutro na guerra Sul-Sudeste contra Norte-Nordeste. No Sudeste a cidadania era solar. Uma vez nascido lá era para sempre de lá. E o nosso governo, para assegurar sua neutralidade, permitiu que ele fosse levado, separado de sua esposa.

Nosso Estado não é um mais Estado neutro. Uma revolta interna derrubou o governo e agora lutamos ao lado dos nacionalistas Norte-Nordeste.  Por muito tempo ficarmos longe das batalhas, mas a guerra agora bate à porta de todos, não só de nós, vítimas de um governo sem pulso que permitiu a saída de cidadãos para lutarem contra sua vontade.
Olho para a xícara de café e o prato com um ovo frito, talvez pela última vez. Até ontem, ficara imaginando como ele seria quando voltar. Mas não hoje. Até ontem, queria que a guerra não o mudesse, apesar de saber que o governo do Sudeste está usando a tecnologia dos chips, proibida internacionalmente. Um dispositivo de nanotecnologia colocado em seu cerebelo que pouco a pouco coloca como dominante a vontade de lutar.
Fazia parte de um grupo de auto ajuda de pessoas com parentes sequestrados, por ambos os lados, para lutarem por algo que não acreditavam. O que todos mais temiam era a perda da identidade de seus entes queridos por causa do chip. Saí por que eles me olhavam com inveja, pois meu marido ainda me escrevia, mostrando laços de afetividade, quando ninguém mais dava qualquer sinal de vida. Eu sei que suas cartas estavam cada vez mais recheadas com slogans separatistas e xenófobos, mas sempre havia algo para mim. Nem que fosse um “te amo” antes da assinatura.
Isso era uma prova de que ele cumprira o que prometera. Lutar contra o domínio do chip enquanto fosse possível.
Porém um dia as cartas não vieram mais. Eu preferia acreditar  que era porque abandonamos a neutralidade e o acordo com os Correios do Sul-Sudeste foi rompido. Isso de fato aconteceu, mas as cartas pararam bem antes.
Infelizmente Nosso Estado scolheu o lado errado da guerra. Não por questões ideológicas, mas por que é o lado que está perdendo.
Hoje, a Capital está sendo bombardeada. Exaustivamente. Cruelmente. Como se quisessem varrê-la do mapa. O pior que eu acho que meu marido esteja comandando algum dos bombardeiros. Ele é piloto. Com seu cérebro chipado, com certeza jogaria uma bomba na própria casa.
Enquanto escrevo, vejo clarões das explosões cada vez mais próximas. Recusei-me a ir para um abrigo. Não suportaria saber que meu marido virou um inumano, uma máquina de lutar sem propósito além de simplesmente matar. Espero que a próxima atinja em cheio a minha casa.
Silêncio. O bombardeio terminou. Arrisco-me a olhar pela porta. Por um instante, não acreditei no que vi. Até onde minha vista alcançava, tudo estava destruído. Minha casa era a única de pé.

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