domingo, fevereiro 03, 2013

O chamado da floresta





-- Me conte outra vez mamãe do primeiro dia em que cheguei aqui...
O menino me perguntava mais uma vez pela história que eu repetia a muito tempo.
-- Você tinha dez anos e não falava. Só rosnava. Os homens que o trouxeram me disseram que você podia ser meu filho recém-nascido que eu perdera a dez anos.
“No começo desconfiei, pois achava que meu filho tinha morrido naquela mesma noite do ataque. A noite em que vi a alcatéia.”
Como sempre o menino, agora um rapaz, me interrompeu:
-- Conte-me mais sobre aquela noite.
A resposta que dei não foi a mesma que ele vinha ouvindo sempre:
-- Aguarde, mas eu não vou contar a mesma história. Hoje eu contarei a verdade.
O menino arregalou os olhos, mas não se atreveu a me perguntar qual seria a verdade. E continuei a história:
-- Dois homens o traziam como se fosse um animal selvagem. Percebi o ódio em seu olhar. Deduzi que fora maltratado. Me contaram que fora capturado poucos dias antes. Meninos-lobos não eram comum na região. E minha trágica história do filho desaparecido em meio aos lobos foi a única que lembraram. Eu não tinha qualquer esperança de achar meu filho. E durante dez anos eu tentara esquecer a violência com que me fora tirado.
“Você praticamente foi jogado dentro de minha casa e os homens nem esperaram por um sim ou não. Mas meu instinto materno falou mais alto. Mesmo que não fosse meu filho, precisava ser acolhido. De certa forma era. Sua história indicava isso.
“Você reviveu outra coisa além de meu instinto materno. Você acordou a bruxa que um dia fora e que deixara de ser naquela fatídica noite. Um encantamento ajudaria a dar-lhe as palavras para que pudéssemos nos comunicar. Dei-lhe a voz que hoje você tem. Tentei, então saber de você a verdade, porém suas lembranças do incidente havia se dissipado.
“Como o passar do tempo, o nosso amor foi crescendo e uma certeza foi crescendo: você realmente estava lá. O que torna o dia de hoje muito cruel para nós dois.
Os olhos do rapaz expressavam sua dúvida diante do que eu falava. Senti que devia me abrir, por mais que doesse.
-- Meu filho, desculpe se o chamo assim, mas me sinto sua mãe de fato. E de certa forma sou responsável pela sua existência.
“Sou uma Bruxa. As pessoas me procuravam para aliviar seus males e eu as ajudava com meus encantamentos. Garantia a saúde e a colheita da comunidade. Foi quando um homem, um fanático religioso, me apontou como a origem de todo o Mal. O seu discurso inflamado mexeu com o emocional das pessoas e a comunidade pacata se transformou num poço de ódio. Um ódio direcionado a mim. Completava o fato que eu, mesmo sem estar casada, estava grávida. O homem primeiro me qualificou como adúltera. Depois que o meu filho ainda não nascido seria a encarnação do demônio.
“Um dia, um grupo de homens armados com paus e pedras, liderados pelo fanático, cercaram e depois invadiram minha casa. Corri para fora, apesar do estado avançado de minha gravidez. Vez por outra uma pedra me atingia a cabeça ou as costas. Contudo, a dor física não era maior que a dor da intolerância.
“A perseguição me levou a floresta. Pensei que se corresse em direção ao temido lar dos lobos eles me abandonassem. Mas não! Corriam e corriam, gritando palavrões e blasfêmias. Caí cansada da perseguição. Em poucos segundos senti a presença deles e logo senti as primeiras pauladas. Meu pensamento foi em direção a meu filho. A necessidade de salvá-lo meu deu forças e me ergui já gritando as primeiras sílabas de um poderoso encantamento. Isso os fez hesitar. Percebi que o simples medo de minha feitiçaria não os faria desistir. Então continuei com as minhas fortes imprecações. Repentinamente eles me viram as costas e correram. Percebi que não fora eu a causa de tamanho terror. Olhei atrás de mim e vi então o grande lobo que os assustara. Meu instinto falou mais alto. Terminei o encantamento e o lancei ao lobo.
“Rapidamente percebi meu erro. Os olhos do lobo me revelaram que ele estava ali para me proteger. Porém, não podia mais deter o feitiço de morte que lhe lançara. Rapidamente decidi mudar o encanto para transformação, o que me daria tempo para corrigir meu erro.
“O encanto atingiu o lobo em cheio. Pude observar sua transformação dele em um bebê. A minha preocupação com meu filho fizera escolher esta forma inconscientemente. Sorri com o resultado e desmaiei em seguida.
“Quando acordei estava só. Vi no chão pegadas de lobos e sinais de que tinha arrastado a criança. Arrastei-me até a cabana, onde poucas horas depois dei a luz a uma criança. Ela morreu, pouco depois, vítima das várias pancadas que meu ventre sofrera.
“Enterrei-a na floresta, seguindo antigo ritual. Amarguei minha dor sozinha. Meses depois as pessoas começaram a me procurar como antes. Soube que o fanático religioso fora linchado pela população após ter estuprado uma menina. Muitas das pessoas que me procuravam mostravam em seu rosto culpa e vergonha. Poucos tiveram coragem de perguntar o que tinha acontecido com a criança. Contei-lhe o dera a luz na floresta e que os lobos o haviam levado. E que não faria mais magias.
O menino olhou-me com os olhos cheios de lágrimas. Os mesmo olhos de lobo que me olharam surpresos com minha atitude, anos antes.
-- Por que não me contou antes? -- perguntou-me triste.
-- Por hoje, meu filho. Somente hoje há conjunção astrológica favorável para eu desfazer meu feitiço e devolver-lhe sua verdadeira natureza.
-- Mas eu não quero ser um lobo...
-- Não, meu filho! Sua verdadeira natureza ira se manifestar. Suas lembranças de sua vida selvagem virão. Sentirá falta de seus companheiros e desejará correr e caçar.
-- Consulte seu verdadeiro eu. Olhe pela janela e veja a lua cheia o chamando para um caçada, ao lado de uma grande matilha.
O menino olhou pela janela e percebi que começava a lembrar-se. O efeito da conjunção estava começando a acordar o lobo dentro dele.

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