quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Politicamente Correto



O judeu esperava o policial que iria prendê-lo. É lógico que nem judeu nem policial seriam as palavras empregadas. Nem o verbo "prender". Mas para captar o que estaria acontecendo foi necessário que eu usasse a língua antiga, anterior a Reforma. Não se preocupe se não entender algumas palavras. A Universidade está preparando um dicionário que em breve estará sendo vendido a preços populares. Espero que sejam sinais de um novo tempo.

Aliás a exigência do Judeu para ser preso foi que o policial que viesse fosse culto o suficiente para usar a língua antiga. A Agência de Preservação das Minorias teve um trabalho muito grande para achar alguém, mas, por sorte, um dos agentes especiais tinha curso de história.

A campainha tocou. Do outro lado da porta o Judeu viu um homem de cerca de trinta anos, com um uniforme cinza. Cor irritantemente neutra. Convidou-o entrar e sentar-se na sala. O Agente assentiu com a cabeça e sentou-se numa das poltronas do aposento e o Judeu escolheu a outra, em frente. Ele esperou ao agente examinar o ambiente a sua volta antes de começar a conversar.

Os olhos do agente percorreram uma a uma das peças ali. Quadros, armas antiga, uniformes de soldados  e oficiais, objetos de uma época que a Humanidade queria esquecer. O silêncio durou cerca de  dois minutos, quebrado pela pergunta do agente, em bom vernáculo da língua antiga:

-- Por que objetos Nazistas? Que prazer mórbido teria você um Judeu em colecionar objetos símbolos de sua opressão?




O Judeu sorriu e respondeu:

-- São apenas objetos. E eu os colecionei apenas para provar isso. Não para mim nem para os meu pares, mas para todos. Sou um historiador como você. Apaixonado pelo passado e de reconstruí-lo para que as gerações futuras entendessem que tinham uma origem e teriam um futuro. 

--Mas onde encaixa esta coleção? Você sabe que apenas mencionar qualquer referência aos nazista é proibida. O que se dirá de uma coleção desta?

-- Eu sei. E sei também que botar o dedo em qualquer ferida aberta contra uma minoria é crime. E muitas vezes no meu trabalho esbarrei em várias delas, algumas abertas pelo meu próprio povo. No início me deram liberdade para pesquisar desde que meus trabalhos não saíssem do ambiente da Universidade. Mas depois, primeiro era difícil achar fontes de pesquisa adequadas. Volumes significativos sumiam. Sumiam também qualquer menção a eles. Os bibliotecários olham espantados, dizendo, "nunca tivemos este exemplar". De Mein Kampf até O Senhor do Anéis. Depois, meus próprios trabalhos sumiram. Por fim, meu registro foi cassado. 

-- Senhor, não há mais lugar para historiadores. Somos felizes sem diferenças de espécie alguma. E historiadores nos trazem lembranças de um tempo que não volta mais.

-- Percebi isto. Você parece estar conformado com sua situação. Um historiador que virou policial. Mas voltando a minhas razões, escolhi o Nazismo justamente pela contradição. Um judeu colecionando objetos nazistas... Ironia pura. Para caracterizar o ridículo da minha prisão (que vocês insistem em chamar de reeducação). 

-- Meu senhor, seriam pra seu próprio bem e para o bem da sociedade. Não queremos mais nenhuma discriminação. Nenhum preconceito.

-- E você acha que eu quero? Não creio que seja eficaz simplesmente negar a existência de diferenças e de uma tal maneira que chegaram a queimar livros em praça pública! Isso me levou aos nazistas também. O que era diferente estava fora. Nos tornamos iguais. Mas não entre nós. Iguais aos nazistas!




O rosto de pedra do policial deu mostras de perturbação. As palavras do Judeu acordaram o historiador adormecido. Não foram suficientes para ele relaxar o cumprimento de seu dever. O Judeu foi levado para um instituição de reeducação. Era como chamavam o presídio. 

Alguns dias depois o policial pediu exoneração. Foi o inicio deste movimento.

Eu era aquele policial.


Alvaro A. L. Domingues
Publicado originalmente no livro Sombras e Sonhos, da Balão Editorial

Nota: Não defendo ideologias totalitárias nem qualquer tipo de discriminação. Apenas acredito que não devemos varrer a história para baixo do tapete.


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